domingo, 11 de março de 2012

Afogando na Umidade

Esses dias vazios, meio chuvosos, me dão um sentimento peculiar. É uma melancolia calada, uma tristeza contida, automáticos ao se depararem com esse clima. É como se o rumor das gotas no meu telhado me sussurrassem ofensas profundas, desilusões amorosas: as reais úlceras da alma. E, ao mesmo tempo, esse ar carregado de umidade sufocasse minhas reações, me impedindo de chorar, como naqueles pesadelos em que nós gritamos a plenos pulmões por nossas mães mas não produzimos som nenhum. Quando nos sentimos assim, só nos resta fechar os olhos, relaxar, e esperar que todas as tristezas e angústias sejam mesmo só um sonho ruim, e que vão desaparecer ao som da primeira vibração do celular sobre a mesa de cabeceira. E, as vezes, elas desaparecem.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um velho


Hoje eu sou um velho. Só um velho. Se já fui um ladrão, um engenheiro, um especialista; nada disso importa. Não sou mais nada disso. Sou apenas um velho.
A coisa mais difícil em se estar na minha idade é isso: você é uma reencarnação. Quer você acredite ou não na pós-vida, quer você seja ou não espírita, na terceira idade, você é sempre uma reencarnação. Isso porque você sempre já foi algo. Vai ser sempre percebido assim, como alguém que já foi um psicólogo, um astrônomo, um padeiro, como que em vidas passadas. Alguém que já amou, que já sofreu, que já brigou, tudo em uma outra encarnação, chamada juventude. Mas que, hoje, só é um idoso.
O difícil em ser velho é sempre não ser; é sempre já ter, um dia, sido.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O bom da dor é o alívio.


Você não sabia o quão deliciosa era sua cama
Antes de trabalhar o dia inteiro
Não sabia o quão valioso era o silencio
Até morar ao lado de um puteiro
Não apreciava a perfeição da sua mãe
Até a ver numa cama fria
E antes da pior cólica intestinal da sua vida
Não sabia que na sua barriga havia tanta calmaria

Mas esses foram exemplos
De dor depois da felicidade
Coisa a que estamos acostumados,
Nós, que vivemos nas cidades
Outro costume que temos
É de sentir dor todo dia
O dia todo, todo tempo
Como uma eterna procissão ou romaria

Aquela eterna dorzinha de cabeça
O stress de ter que pegar trem
O trem que não funciona direito
O celular que não funciona também
O plano que saúde que não cobre isso e aquilo
E o seguro de vida que só vai servir pra quem não morreu
O despertador do vizinho que acorda você
O contrato que você leu mas não entendeu

O alivio da dor do parto
É o primeiro mamãe que o filho diz
O alivio de trabalhar o ano inteiro
É ver seu décimo terceiro
Fazer sua família feliz

Tenho que evitar pensar nessas coisas
Sobre como é bom o alivio da dor,
Que é ainda mais gostoso
Quanto maior e mais forte a dor for,
Porque Isso me lembra que essas dores todas da vida contemporânea
Juntas configuram a maior dor já sentida,
E me faz pensar o quão gostosa pode ser a morte,
O único e imediato alívio da dor da vida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Costas Largas


Já somos adultos, e o ar da vida adulta, espesso e denso, começa a pesar sobre nossos ombros. Não subimos mais escadas, nem levantamos mais a cabeça com a mesma facilidade. É tudo tão pesado. Viver tem sido tão pesado. E cansativo também. Viver é ser, e ser cansa.
Não, não há de ser o ar. Vejo crianças sapecas a subirem e descerem a escadaria da igreja, com sorrisos de quem não tem nada a saber. Estamos na mesma atmosfera, e o ar não parece lhes pesar em nada. É, não é o ar.
São nossas costas, nossos ombros. Só poder ser nossas costas e ombros. Funciona assim: nós crescemos, e eles crescem conosco. Maiores, entram em contato com mais ar, carregam mais ar de uma vez, e a vida parece nos pesar mais.
Deve ser por isso que existem tantos experientes em serem adultos a vagar por aí, com essa mesma expressão de quem já cansou de viver. São um bando de costas largas.

Provas de Amor


Eu não gosto de provas de amor.
E, pra mim, isso que você andam fazendo, de declarar o amor em voz alta em lugares públicos, comprar presentes caros, desistir de oportunidades importantes; isso não são provas de amor.
O amor é chama, já dizia Vinicius. Quanto maior o amor, maior a chama. Quanto mais intenso é o amor, mas intensa é a chama. E, qual é a prova da existência de uma chama?
Não se toca numa chama, não se pega uma chama, não se estica uma chama. Imagens também não provam a existência de uma chama, nem a potencia dela, porque muitas coisas reluzem e se assemelham.
Cinzas. A única prova da existência de uma chama são as cinzas que ela deixa quando já se foi. Quanto mais volumosas as cinzas, quanto maior o rastro de destruição que uma chama deixa parar trás, mais intensa e poderosa foi.
A única real prova de amor é o estrago que o amor deixa quando para de queimar. Eu não gosto de provas de amor.

A Casa que Envelhece


Eu vago pela casa como quem peregrina em meio à neblina. Passo em frente à janela aberta, por onde agora entra luz. Não que antes os dias fossem nublados, ou as cortinas fechadas; nada disso. É que antes a casa sorria, a casa ria, a casa gargalhava. E seus olhos, as janelas, brilhavam tanto, que não se percebia a luz do sol entrando. Era como se mais luz saísse do que entrasse, porque felicidade tem luz própria.
Por onde quer que você andasse, sempre na ponta dos pés, e com esse nariz empinado, flores brotavam do assoalho, e no piso de cerâmica, via-se nascer um musgo. A casa de esverdeava, e se aquecia, se refrescava e renascia a cada manhã.
Mas, você não voltou mais. E, as faxinas e arrumações freqüentes podem até manter a casa bonita, mas nunca tão aconchegante. Porque, o aconchego é a propensão à vida. Uma casa aconchegante é como um solo fértil pra se plantar o viver, a felicidade.
Não adianta fechar as portas, as janelas e as cortinas também. Porque, uma casa não é como uma caixa de isopor, que basta estar bem fechada para conservar o calor. Nada contem o calor da vida.
E eu, agora, sentado no sofá, tirando as minhas meias, revivo essas lembranças brandas. Lembranças amarelas. Lembranças à luz de uma vela. Gargalhadas, sussurros e suspiros que vacilam como vacila a chama no pavio. Como num porre, como num sonho. E doídas. Mas, eu sou obrigado a lembrar. Porque, para onde quer que eu olhe, vejo essas paredes opacas, que se confundem com a opacidade do meu pé ressecado e com fiapos de meia grudados.
Sem você a casa se emudece, se entristece e se grisalha. Se grisalha, e não se empalidece, não desbota e nem descasca. Sua pintura se grisalha, porque a perda de cor não é por ação do tempo, como no desbotar. Mas por ação de uma ausência cada vez maior de vida, como no viver.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Saudade

Eu nunca usei cocaína, mas tenho a impressão que o que eu sinto quando você não está perto é igual à abstinência de grandes viciados nessa droga. Porque eu já respirei, a você e ao seu cheiro, tanto e com tanto prazer, que a cada inspiração que faço longe de você sinto um ar pesado. Acho que isso é que é saudade de verdade: é a dor de respirar um ar carregado da ausência de quem se ama.