quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Texto em movimento
Eu já escrevi bem, já escrevi. Já fui de abrir uma veia
sobre o papel, e o curso do meu sangue correr em letras e palavras e linhas e
textos, em poesia ou prosa.
Já escrevi. Meus dedos em canetas, lápis e teclados já foram
capazes de trazer ao mundo pensamentos nem a ciência traduz nem a imaginação
materializa.
Eu já transcrevi. Já pintei quadros mentais em muitas
cabeças sem uma gota de tinta, e com apenas minha mente como pincel.
Eu já fui um futuro escritor. Já cunhei o que pensava com a
técnica e beleza que cabiam a minhas idéias.
Mas, hoje?! Hoje eu disserto tantas e múltiplas e opostas
coisas em minha mente que nenhuma palavra é tão efêmera ou metafórica que possa
expressar tão breve pensamento.
O mundo gira muito rápido aí fora. E eu não consigo escrever
em movimento.
Marcadores:
bloqueio criativo,
Escrever,
escritor
sábado, 30 de julho de 2011
Samba de um Samba
Eu queria fazer uma música
Que começasse se anunciando
Assim, com uns clarins
Uns metais gritando
Como quem diz: cheguei de vez
Porque, não sou homem de vir
chegando
Depois, viria o teclado
Segurando um acorde bem cheio
Mas, ao mesmo tempo, dedilhando notas
agudas
Como quem pula num rio, e, pra
chegar no meio
Mergulha, vem à tona, e volta a
emergir
E acaba por atravessar o rio
inteiro.
Daí, entrariam um pandeiro e um
violão
Os dois amigos, inseparáveis num
samba
Faziam a base pro clarinete entrar
Como a camareira prepara a cama;
E entraria o clarinete malandro
Como chega o tão esperado bamba.
O clarinete traz o tema da música
Como se traz uma dama pela mão
Calmo, e perene, e cheio de jeito
Cheio de cavalheirismo, e até de
resignação.
Faz o tema tão levemente
Que até parece um samba-canção
Mas, depois, dispara numa carreira
louca
Recortando toda a melodia,
Como quando corre um gordo
desajeitado
E leva um tombo que, de ver, arrepia
Ao tentar se levantar, escorrega, e
cai de novo
E o faz tão inocentemente que não há
quem não ria
Repete partes distantes da música
Como que de forma aleatória.
E o faz tão linda e livremente,
Repete tanto, e de maneira tão
notória
Que, para garantirem que um dia
acaba a música
Lhe fazem assinar nota promissória.
Quando finalmente a música está para
acabar
O clarinete se retira assim, à
francesa.
O sono do pandeiro o faz ralentar
E o violão desfere enfim seus
acordes de presteza
Pra que a música acabe, sim, lenta
Mas, nunca com ar de tristeza,
Como deve terminar a vida, lenta porém
feliz.
Porque a morte, apesar de ser
indesejado juiz,
Sempre foi nossa única certeza
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Monumentos à Tristeza
A cidade, sonolenta,
se movia devagar
Casada de produzir,
cansada de trabalhar
As pessoas já não andavam,
se arrastavam pelas ruas
Todos na solene marcha,
via sacra às casas suas
Em meio a esse burbúrio,
houve um grande alarido
Um anúncio de algo novo
que atingiu a todo ouvido
Era com grande volume
Era com grande euforia
Que, aos quatro cantos da cidade,
o anunciante assim brandia:
- Venham, venham! Venham todos
Vejam como é ser coitado
No novo monumento à solidão
À tristeza e ao rejeitado
- É uma escultura, com certeza
Mas, não foi feita por Aleijadinho
O fato é que seu coração
Ele sim já não anda sozinho
- Ele ergue o rosto e suspira
Suspira e ergue o rosto
Engole seco, e faz cara feia
Como se ainda sentisse gosto
- Seu olhar parado no ar
É o que causa maior comoção
Em nenhum lugar do mundo
Jamais se viu tão formidável atração
- Venham, venham! Venham ver!
E saibam agora do que é mais triste:
É por culpa dessa atração
Que toda a tristeza nela reside!
Ninguém que saía do centro
deixou de ouvir a gritaria
Alguns foram conferir,
ver a estátua que nunca sorria
Porém, a maior parte das pessoas
Nem se interessou pelo monumento
Preferiram voltar pra casa,
pra sua tranqüilidade rasa
Ou para seu bairro agourento
A estátua ficou sozinha
quando acabou-se a claridade
pois, de todas as luzes do shopping
nenhuma se manteve acesa, por caridade
A estátua se moveu
Viva ou morta, tanto faz
Pois quem tem dos sentimentos
Só as dores e os tormentos
É porque não vive mais
Marcadores:
estátua,
estátua viva,
monotonia,
Monumento,
tristeza
terça-feira, 5 de abril de 2011
A Noiva do Mundo
Houve uma mulher
Que amava muito
E amava tanto
Que amava o mundo
Amava o dia
amava a noite
A melodia
E o som do açoite
Amava a dor
A alegria
O furor
A companhia
Amava tudo, e amava tanto
Que chorava amor
E amava seu pranto
Seu suor também era amor
E suava quando corria
Por toda a cidade em romaria
em seu vestido de noiva
A se casar com o mundo
O homem da padaria
Jurava que a conhecia
Antes da loucura
Antes do alarde
Diz que ela de manhã
Comprava pão francês
Croisant de queijo às três
Pra tomar café da tarde
A costureira diz que ela foi sempre assim
Sempre em sua loja, a comprar
Cortes brancos de cetim
Miçangas e lantejoulas xinfrim
Pra, com seu vestido de noiva sem fim
Com o mundo se casar
O vigia diz que se lembra dela
A mulher doida, da casa amarela
Sempre a cantarolar em sua janela
Uma marcha nupcial singela
Ela canta assim tão baixinho
Assim, tão calmamente
Pra não acordar o mundo que ama
Tão cansado de pegar no batente
Afinal, o mundo trabalha o dia inteiro
Fazendo a vida, a vida da gente
O mundo é um violino que toca
Sem erros, uma música permanente
Merece discansar, mundo trabalhador
É o que diz ela consigo
Canto apenas para ninar o seu sono
A musiqueta que ira tocar
Quanto te encontrar no altar
E, enfim, casares, de todo, comigo
Um dia, o dono da funerária
Amigo de infância da amante donzela
Foi convidado por ela
Para visitar sua casa
Ele foi com muita pressa
Pois não é sempre que uma amiga querida
Tida por muitos como doida varrida
Para sua casa lhe convida
Correu, correu, e chegou à casa
Porém, ter corrido não o a diantou de nada
Pois, quando à casa, adentrou
Viu a amiga que o convidou
Já sem vida, no chão deitada
Porém, teimosos como somos
Custamos sempre a acreditar no pior
Então, duvidou da morte o funerário
Quis porque quis acreditar no contrário
Que sua amiga apenas dormia
O arcênico não mão da morta
Delatou triste verdade ocorrida
Confirmou ao homem parado na porta
Que sua amiga jazia sem vida
Havia um papel preso na porta
A ultimo desejo da doida varrida
Ela queria ser enterrada
Com vestido de noiva que fiou em vida
O enterro foi um grande evento
Toda a gente da cidade reunida
Para dar adeus a louca noiva
Porque pensavam ser esta uma triste partida
Niguém entendeu o que acontecia
E mantiveram seu pranto profundo
Mal sabiam que naquela tarde fria
O sonho da mulher em real se fazia
A noiva se casava com o mundo
sábado, 26 de março de 2011
O Chapeleiro
Certo dia, o Chapeleiro Maluco me perguntou: Quem é você? Eu, iludido com a ideia de que alguma das perguntas dele pudesse realmente ter uma resposta tão simples, respondi inocentemente: Ora, sou Pedro Luan Balle Silva. Claro que não, ele logo me respondeu, Pedro Luan Balle Silva é quem é carinhoso com a sua namorada, e, quem é hostil com os homens desconhecidos no metrô; Pedro Luan Balle Silva é quem correto na sua igreja, e quem é ladrão no carteado; Pedro Luan Balle Silva é uma pessoa que não existe na vida real, existe apenas, e diferentemente, nos olhos de cada um que o vê. Eu, confuso, então lhe perguntei, em tom debochado: E você, quem é? Ele, prontamente me respondeu, deixando claro todo seu discurso: Ora bolas, eu sou eu; mas, para você, sou um rapaz estranho, que usa chapéu e fala as coisas das quais sua mente doentia não tem coragem de assumir a autoria.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Sonho em Sépia
Estávamos no parque. E as folhas mais precoces, anunciadoras do outono, já amarelavam. Seu reflexo em sépia inundava toda a paisagem. E, a vida parecia passar devagar.
As nuvens eram as únicas aceleradas. Se fecharam em tormenta num piscar de olhos. E, em muito mais tempo que isso, começaram a se precipitar as primeiras gotas prateadas de vida celeste. As gotas caiam em câmera lenta, mas nós não queríamos nos desviar delas. Era divertido vê-las aos poucos procurarem nossos corpos vestidos, e só no ultimo instante esquivarmos-nos delas.
Foi então que a primeira gota tocou o chão. E, quando isso aconteceu, subiu me um arrepio dos pés à nuca. Um arrepio de frio, de emoção, de magia. A partir daí, a chuva começou a seguir seu fluxo, sua velocidade normal. A gravidade voltou a funcionar.
Corremos o quanto pudemos, até algum lugar coberto. Mas, foi só ao avistar aquela assustadora aranha que me dei conta de que o sonho estava se acabando, se desfazendo aos poucos.
Sentei-me então, a lamentar o fim da minha fantasia, tremendo o frio que tanto dentro quanto fora do sonho me atingia. Quando você, meu calor, se postou ao meu lado, e me abraçou, como que me dando a chance de acabar bem. Recostei minha cabeça em seu ombro, e senti a maciez e o cheiro do meu travesseiro nele. No entanto, essa foi a parte mais real do meu sonho. Porque, apesar de seus ossos não serem macios como as plumas em que toda noite apoio meus sonhos, sei que é tão ou mais agradável se recostar neles, e sonhar nossos sonhos juntos. O amor torna tua carne macia, teu cheiro gostoso e tua vida aconchegante.
Texto de presente para Náthalie Louise, do blog http://justfeelsogood.wordpress.com/ , sobre um sonho que ela teve... aquela linda! ♥' hahahaha'
Assinar:
Postagens (Atom)

