quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estações.

Eu sempre vejo minha vida dividida em estações. Mas, não como as estações do ano, que são ciclicas e tem a ver com a temperatura ou algo assim. Não, estações de coisas, pensamentos, ideias fixas, modas ao meu redor. A estação do axé, que tinha pochette e tal. A estação das surras, que era quando eu vivia apanhando da minha mãe porque era muito teimoso e desastrado. A estação das chuvas, que essa sim tem a ver com a temperatura, mas que também coincidiu com o período em que meu pai foi embora de casa. Enfim, eu estava ouvindo uma música outro dia, e me lembrou de uma dessas épocas: a estação do chicote. Nada a ver com a estação das surras que eu falei antes, talvez até tenha acontecido mais ou menos no mesmo período, mas não tinha relação dessa vez. Essa estação aconteceu quando deu pra as novelas da tevê todas serem de época. Ou quase todas. Sempre. Ou quase sempre. E, em todas elas, tinham os personagens dos escravos. E, quando você via apresentação da novela -- aquele clipezinho no qual, pela única vez, você ia ouvir a música de abertura da novela inteira --, a gente já sabia quem iam ser os escravos, mesmo que não se visse a caracterização deles no clipe. Mesmo que todo mundo aparecesse sorrindo igual nos clipes de apresentação, com os mesmos braços cruzados, na mesma rotação de costas para frente. É que esses atores eram sempre faziam esses papéis. Mesmo quando tinham atores negros novos, a gente já sabia. E não pense que eram todos iguais não, não eram. Sempre tinham funções de escravos diferentes: o escravo bruto, a mucama, o que a filha de alguém sempre se apaixonava, os pais do menininho que não se sabia se seria escravo ou não quando nascesse. E, até dentro dessas especificações, os atores sempre faziam cada um seu papel. Esse negro que tinha mais cara de bruto fazia o bruto, essa outra que tinha mais cara de mucama, mucama; etc. E, bom, era igual nos desenhos né, eu tinha que ser um. Eu sempre era um deles, a identificação da criança com o personagem é mais intensa. É mais sincera, na verdade. O adulto vê um filme, empatiza com um personagem, quer ser aquele personagem, mas não se deixar ser esse personagem; ele é durão, faz bico, até chorar quando alguém importante pra o personagem morre. Aí acaba a farsa. Mas, de criança, eu queria ser um, e só podia ser os que pareciam comigo. Os que tinham cabelo como o meu, pele como a minha, nariz como o meu, boca como a minha. E, diferente dos atores, eu não era sempre o mesmo: as vezes eu era mais o durão, as vezes eu era mais o menininho, as vezes eu era mais o apaixonado. Mas, o que importa? Todos sofriam igual, no chicote. Todos, todos eles. Homens, mulheres, até o menininho. Todos iam pro tronco, apanhar. A novela sempre escolhia mostrar a cara deles sofrendo, o suor. Varias vezes eles não sangravam, era como se coro de negro não sangrasse, ou como se eles não quisessem gastar sangue nessas cenas, sei lá. Sei que eu sempre torcia pra eles se soltarem, igual nos desenhos de super heróis, onde eu sempre era o lanterna verde ou o super-choque. Mas, não. Eles nunca se soltavam. Nem matavam os padrões depois, nem gemiam fazendo um discurso do Mandela ou do Ali ou do Luther King. Nunca. Eles sempre apanhavam igual. Sempre chicote. Sempre igual. Igual outono europeu. Igual estação da linha vermelha.

domingo, 2 de agosto de 2015

Nós.

Um nó firme demais, que não desata de jeito nenhum, nem por obra do cão -- isso não é nó bom. Da bolha no dedo, quebra a unha, mas não solta -- é nó cego. O nó bom é o que desata, nó é feito pra desatar, mas na mão de quem fez.
A rede é presa, balança balança, criança pula em cima, mas não solta. Cai o pau do forro se a pessoa for muito pesada, mas o nó tá lá, firme e forte. Mas, se a casa não for mais do dono, com dois puxões e um olho atento, tem que dar pra soltar a rede, e se deitar em outro lugar.
São nós o que prende o barco no céu, acima do mar, nós que laçam o vento e a maré. Nós.
Nós que fazem de fios soltos uma tarrafa, onde se colhem peixes e camarões e algas frescas.
Nós que conectam as coisas, nós que unem as retas, que formam redes. São nós. Somos.

Somos nós.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A gente que cresce assim, meio nascido, é sempre diferente mas tem sempre muito igual. Nasce cada um num lugar, mas sempre com um corrego perto; brinca cada um numa rua, mas sempre perde o tampão do dedo porque joga descalço; estuda cada um numa escola, mas sempre uma E.E.; tem cada um uma vida, mas todas na mesma faixa economica no IBGE. São as condições necessárias pra ser meio criado, são os bonecos de isopor que compõem o presépio do menino sem pai.

Por não ter um pai forte pra nos garantir contra os outros, a gente apanha na rua e apanha na escola. E, se não bater de volta, apanha em casa também: mas pelo menos o braço é mais fraco. E é mais fraco não porque deus fez assm. É mais fraco porque o mesmo braço que lavou a roupa, fez comida, limpou nos cantos, arrastou o sofa e carregou o dinheiro pra dentro de casa é o braço que, no fim do dia, vai punir suas safadezas de moleque.

A voz grossa é emprestada de um amigo, o jeito de coçar o saco se rouba de um professor preferido, do tio vem o jeito de alisar o cabelo baixo enquanto olha para uma bunda. Todo favelado sem pai é um homem arlequim, e nessa roupa em mosaico sempre falta um retalho pra cobrir a bunda.

E eu sempre seminu. Cobrindo onde podia com a prosódia de um amigo, os hobbies de outro, a risada de um chefe. Dos homens por quem eu nutria algum afeto ou admiração, tomava emprestados elementos me ajudassem a ver em mim um homem, digno do amor e do tesão de alguem. "Você parece uma mulher falando" era a frase que vez por outra atestava minha constante e miserável falha. Vez por outra.

E hoje eu, falando sozinho, xingando meu celular, no timbre de uma frase minha redescobri minha mae. Nunca ninguém foi capaz de saber quem falava ao telefone, se eu ou ela. E minha mae insistia sempre em afirmar que tinha a voz muito grossa -- tem mesmo. Negava sua feminilidade pra me assegurar minha macheza. Até nisso ela se sacrifica.

E hoje, falando sozinho, xingando meu celular, no timbre de uma frase, descobri que eu pareço minha mãe falando, e pela primeira vez eu conscientemente tive orgulho disso. Me senti como em todas as vezes em que nos arrependemos de ter odiado joias encrustadas em nós, como nosso cabelo crespo ou nossa inteligência.

Eu quero ter uns trejeitos da minha mae, quero levar para a vida as magnificas frases de efeito herdadas da avó espanhola dela, e principalmente cultivar até morrer a sensibilidade. Hoje eu sei que sou digno do afeto e do tesão dos outros, e que se alguém me ve na rua e me imagina nu em suas fantasias pessoais corriqueiras, não é porque eu coço o saco como o meu tio, mas porque eu posso ser tão atraente quanto a minha mãe.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Fim de ano


Pra se acender fogos de artifício, o procedimento é quase sempre parecido: você o segura com uma mão, acende o isqueiro com a outra, coloca a chama em contato com a pavio e, uma vez aceso, se livra da bomba ou foguete o mais rápido que puder. Muda um pouco de material pra material – um só se acende com fósforo, outro tem uma parte de pólvora exposta ao invés de um pavio --, mas o modo de acender varia muito mais em função da idade de quem acende do que da modalidade do fogo de artifício. Quando se é um pouco mais velho, antes de acender o pavio há todo um trabalho psicológico pra se livrar das falas acumuladas da sua mãe na sua cabeça, contando histórias que ilustravam o quanto soltar fogos era perigoso; dependendo da idade, é necessário até se livrar de lembranças de amigos que realmente queimaram suas mãos, e apanharam das mães em seguida – tudo isso pode atrapalhar sua performance.
Mas, chega um nível de idade em que isso se inverte. Quando se é muito velho, não se tem muito o que perder . É um momento em que as histórias contadas pelas mães não assustam mais. Não assusta mais a ideia de perder um dedo quando é normal passar semanas inteiras sem precisar – ou poder – usar uma das mãos. E, é por isso que Osvaldo está agora com as rodas de sua cadeira enterradas na areia, e segurando pela haste de madeira um desses foguetes grandes que explodem colorido , quando deveria ter no mínimo enterrado a haste na areia, e estar em condições de correr assim que colocasse fogo no pavio.
É difícil explicar como um velho nessas condições conseguiu fugir do hospital e comprar fogos de artifício, mas é fácil explicar como ele está invisível na praia. Com uma falta de energia, típica da região litorânea de São Paulo em dias de altíssima temporada, resta apenas a luz da lua, que causa um reflexo elíptico na careca de Osvaldo, e alguns reflexos em formatos geométricos nas ferragens de sua cadeira de rodas. Quem olhasse para ele jamais veria esses reflexos como parte de um todo, um pouco porque o meio de seu corpo estava completamente apagado, e um pouco porque ninguém na cidade estava sóbrio o suficiente para não interpretar o reflexo curvo como parte da espuma das ondas ao fundo, e os reflexos perto do chão como mais uma oferenda a iemanjá que ainda não saiu da areia.
Osvaldo não tremia, não agora. Era firme, como é firme a mais velha professora de balé ao ensinar balé, por mais Parkinson que ela tenha. Diferentemente das mãos de quem se prepara para desplugar os aparelhos que mantêm a si próprio vivo – ou das de qualquer outro tipo de suicida --, as mãos de Osvaldo estão secas e duras como as de um lavrador, um pedreiro ou um professor que usa giz e lousa em suas aulas. Já fez isso centenas de vezes.
Segurava o foguete com o braço esquerdo formando um arco para a esquerda, de modo que o foguete ficasse mais ou menos da altura de seu rosto – assim poderia ver os propulsores funcionando em todo seu esplendor --, mas sem que seu braço se queimasse com o fogaréu – isso talvez impedisse seus planos.
Ele só soltava fogos no ano novo, não achava justo assustar tanto os animais mais de uma vez por ano – já não bastam os males que causam todos os barulhos do dia-a-dia das cidades à audição apurada de seus moradores involuntários. E também, talvez principalmente, preferia manter uma relação de saudade com sua atividade preferida, como passa uma semana sem se masturbar uma jovem esposa que quer ter seu prazer prolongado ao se relacionar com seu marido tão amado. Nunca passou um ano sequer sem soltar fogos na virada, não por algum significado que a data pudesse ter a alguém, mas pelo prazer das luzes, cores, formas, texturas, sons, etc.
Não teria conseguido manter os braços levantados em tal posição por tanto tempo para qualquer outra atividade, a que, com certeza, estaria menos determinado. Puxou e puxou o gatilho de seu isqueiro octogenário até conseguir uma chama boa o suficiente. Dirigiu a mão direita, que agora tremia um pouco, ao pavio, e a manteve até que o fogo incendiasse a cordinha. Esperou que o fogo percorresse todo seu caminho e, nesse meio tempo, era possível ver algo mais além do reflexo em sua careca. Havia um leve sorriso em seu rosto – não se sabe desde quando --, um misto de paz e conformação, trazido à luz pela chama clara que queimava o pavio.
O fogo chegou à base do foguete, e sua propulsão começou a funcionar. E, como um gato que, mesmo manso, já cansado se ser judiado pela mesma criança, o foguete como que se debatia, forçava um escape. Osvaldo o segurava firme. O fogo queimava cada vez mais a mão esquerda de Osvaldo, queimara seus pelos e derretia agora suas unhas. Mas Osvaldo segurava firme, com a firmeza de uma velha bailarina em seu pliê, ou um velho pedreiro empunhando sua enxada, ou um suicida experiente puxando o gatilho.
Finalmente, como um bicho já sem energia para lutar, o jato do foguete vai aos poucos parando de sair, e parando de queimar, até que finalmente para, num silêncio terrível. Osvaldo pôde, então, ouvir o princípio de uma explosão. Era o som da pólvora no interior do foguete começando a queimar, seguido do som das câmaras que a guardam começando a se expandir com o calor. O som que nem imaginamos existir, por estarmos sempre longe demais da explosão pra perceber. Esse som foi ficando mais e mais agudo, até se assemelhar a um breve assovio.  
Antes do estampido e do clarão da explosão, e ao invés do branco e do vermelho metálico prometidos pelo rótulo do foguete, Osvaldo viu todas as cores de fogos possíveis. Ele experienciou uma sequência de oitenta e uma explosões diferentes, algumas de foguetes iguais. Na nuvem de fumaça de cada explosão, um rápido filme, pequenas memórias, iluminadas pela luz colorida de cada bomba. Ele viu o nascimento de seu irmão do meio; o primeiro aniversário dele; o sorriso – que durou meses – após seu primeiro beijo; o dia em que o foguete atravessou o vidro do carro do senhor Belarmino e, na explosão seguinte, o rosto de bravo de seu pai, que durou todo o ano ao longo do qual ele pagou o concerto; o dia em que conseguiu seu primeiro emprego; o dia em que pagou a primeira prestação da casa; o nascimento de seu filho e seu casamento, na mesma explosão.
E, com o espetáculo mais vermelho do que branco presenciado por alguns transeuntes embriagados nas areias sujas de vidro de alguma praia de Santos, o fim de ano significou para Osvaldo realmente o que na realidade não significa para ninguém: o fim de algo de verdade.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ensaio

Essa feiura aí, do meu lado na foto, vocês sabem, é Vinícius de Moraes, a maior amizade que já tive. Vinícius falava muito de um poeta paraense, que ele dizia ter uma intimidade enorme com Deus: "Ele parava as vezes no meio da rua, e perguntava 'onde o Senhor quer chegar? ando precisando muito do senhor; ajude fulano;'"
Eu não tenho tanta intimidade, mesmo depois do ultimato do meu reumatologista. Mas, de vez em quando, pergunto: "onde o Senhor quer chegar? Levou o Dorival, o Duca, o Vinícius, o Tom e agora o Roberto Silva." Só sobrei eu na cela. De todos os meus companheiros, nenhum aguentou. Eu já nem sei mais se ainda sofro as torturas diárias, se ainda tenho segredos pra revelar, ou se essas dores todas são só efeitos dos choques que a vida já me deu. Não sei se tremo de parkinson ou de medo. Se os cacoetes tá espasmos, derrames ou uma cara de angústia permanente, fruto da permanente angústia. Todos os amigos, todas as pessoas de verdade já foram embora. Só sobrei eu nessa estação de trem lotada, lotada de gente estranha com hábitos vazios.
Essas rugas todas no meu rosto que essa maldita luz azul vertical acentua fazem a gente parecer umas árvores. A velhice seca os nossos olhos. E, se a gente não chora, se não chove no rosto da gente, tudo seca, esturrica, craquela em sulcos como o chão seco da caatinga. Tudo morre – menos nós. Quando se fica velho, volta-se a urinar na cama, volta-se a não ter cabelo nem dentes, mas a única coisa que a gente não volta é a acreditar que choro resolve alguma coisa.
Sempre que abro os olhos pela primeira vez, e nem sempre é dia, vejo tudo se mexendo. Não sei se é minha vista que se descontrola, ou se o mundo é que convulsiona. A sabedoria só nos chega quando já não nos serve de nada, e a coragem pro suicídio só nos chega quando percebemos que não temos mais nada a perder. Mas, eu tremo demais pra puxar um gatilho.
Ainda assim, ao menos uma vez por dia eu esqueço, propositalmente, do remédio pro coração. Minha vida está nas mãos de Deus, mas em uma coisa eu sou melhor que ele: eu sei onde quero chegar – no fim.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Macumba no Condomínio


Foi deixada, solitária
Em um estranho lugar
Uma oferenda a exu
Entre o bloco G e o agá

Seu pano vermelho ao vento
Não exalava o odor de tumba
Comum a semelhantes oferendas:
Deslocada estava a macumba

Será que ali, desacorsoada,
Em chão de propriedade privada,
a pobre macumba seria
quem sabe um dia chutada?

Uma coisa é certa:
Em condomínio de nome
Nem orixá busca oferenda
Sem se anunciar no interfone.

sábado, 28 de julho de 2012

Diários de um novo Condômino


Apartamentos são como casas mal-assombradas. Você ouve o som dos passos no corredor, chegando até você, passando por você, e se encerrando lá atrás, mas não vê nada. Ouve batidas, ruídos, sussurros, gemidos, mas nada acontece no seu cubículo bem localizado com vista pra uma avenida movimentada.
E, nos domingos, o chiado de uma panela de pressão, cheiro de comida, os gritos de criança e as risadas invadem sua mente, e transformam o apartamento num livro de fotos animadas, uma caixa de lembranças de momentos que nunca existiram.
A vida acontece, não lá fora, mas nos outros dentros. E o que sobra a mim são esses vestígios de acontecimentos nas outras dimensões, ecos do atrito de outras vidas.

domingo, 3 de junho de 2012

Êxtase


O banho revela um corpo marcado, arranhado, ensangüentado. É como se eu tivesse sido perseguido por uma fera horrenda, cujos olhos furta-cor refletem o brilho da lua, vertendo pelo caminho uma saliva vermelha, da cor do sangue de tantos outros devorados por sua sede de sofrimento e não a saciaram. Uma fera que, com as mesmas garras que abre caminho entre as árvores e plantas do bosque sombrio que lhe serve de esconderijo, campo de caça e palco de rituais. E a oferenda era eu.
Ao menos, seria o que eu declararia ao júri de um tribunal cheirando a crime e madeira velhos, em que eu precisasse de um álibi e uma justificativa para minhas escaras.
Ou, talvez não. Talvez eu preferisse ser condenado por todos os crimes do mundo, a ter que fui possuído pela fera, e não perseguido por ela. Negar que dela sofrera os mais deliciosos abusos. Negar que seus curtos dedos delicados de moça, como os dos gatos, escondiam garras capazes de rasgar o mais duro coração, mas que em mim se ocuparam apenas de marcar território. Uma fera que não tem nada de horrenda, e que cujo amor, com o suor de nossas camisas, vi se tornar em furor, depois descontrole, riso, choro, estase e por fim – literal e figurado – gozo.
Em meu corpo, tenho as chagas que, diferente das de Cristo, não provam a missão cumprida de trazer amor a todos, e sim a de trazer prazer a uma. Um quase-messias do éros, e não do ágape.
As marcas e arranhões todos compõem, juntos, uma partitura, tocada apenas por suspiros e gemidos, que se sucedem, se intercalam, fazem duetos e, em uníssono, soam o clímax, o gran-finalle, a evidência mater da natureza animalesca do homem: aos que ainda não entenderam, o sexo.

domingo, 1 de abril de 2012

No meu tempo


Eu sou do tempo em que cartas de amor eram a única saída pra a timidez. E todos eram tímidos. No meu tempo, a vida era tão complicada. DVDs de black comprados na feira eram os coreógrafos de qualquer pobre, porque só haviam professores de dança nas escolas de dança. No meu tempo, o amor era só de mãe, mesmo a gente sempre achando que não. Mesmo que a paixão nos visitasse a cada esquina, mesmo que a faísca de qualquer sorriso acendesse uma brasinha no coração. No meu tempo, dor de verdade era arrancar o tampão do dedão no asfalto tentando chutar uma bola. No meu tempo a esquerda era mais esquerda, e a direita era mais direita. Muito embora a única política de que se entendia era a Política da Boa Vizinhança. No meu tempo, o maior desafio que existia era falar paralelepípedo bem rápido, mesmo sem fazer idéia do que essa palavra significa. E as palavras significavam muito. No meu tempo, a medicina era avançada. Eles estavam próximos de descobrir a cura para doenças mortais, como o câncer, a AIDS, a inveja e o amor. No meu tempo, não era difícil fazer a lição de casa, ou não ficar grávida antes dos 15 – difícil mesmo era passar a fase aquática do Mario. E Mario não tinha nada a ver com armário, ou coisa assim. Mario era o que todo mundo queria ser: um cara simples, com super poderes, e que bastava seguir uma lógica simples pra encontrar sua princesa ideal. No meu tempo, já não se faziam mais doce de abóbora como antigamente, geléia como antigamente, chocolate como antigamente; mas, poxa, como a vida era doce!

No meu tempo, nostalgia era coisa de velho. Se hoje em dia está tão na moda, é porque nós, realmente, não temos do que nos orgulhar no presente.

domingo, 11 de março de 2012

Afogando na Umidade

Esses dias vazios, meio chuvosos, me dão um sentimento peculiar. É uma melancolia calada, uma tristeza contida, automáticos ao se depararem com esse clima. É como se o rumor das gotas no meu telhado me sussurrassem ofensas profundas, desilusões amorosas: as reais úlceras da alma. E, ao mesmo tempo, esse ar carregado de umidade sufocasse minhas reações, me impedindo de chorar, como naqueles pesadelos em que nós gritamos a plenos pulmões por nossas mães mas não produzimos som nenhum. Quando nos sentimos assim, só nos resta fechar os olhos, relaxar, e esperar que todas as tristezas e angústias sejam mesmo só um sonho ruim, e que vão desaparecer ao som da primeira vibração do celular sobre a mesa de cabeceira. E, as vezes, elas desaparecem.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um velho


Hoje eu sou um velho. Só um velho. Se já fui um ladrão, um engenheiro, um especialista; nada disso importa. Não sou mais nada disso. Sou apenas um velho.
A coisa mais difícil em se estar na minha idade é isso: você é uma reencarnação. Quer você acredite ou não na pós-vida, quer você seja ou não espírita, na terceira idade, você é sempre uma reencarnação. Isso porque você sempre já foi algo. Vai ser sempre percebido assim, como alguém que já foi um psicólogo, um astrônomo, um padeiro, como que em vidas passadas. Alguém que já amou, que já sofreu, que já brigou, tudo em uma outra encarnação, chamada juventude. Mas que, hoje, só é um idoso.
O difícil em ser velho é sempre não ser; é sempre já ter, um dia, sido.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O bom da dor é o alívio.


Você não sabia o quão deliciosa era sua cama
Antes de trabalhar o dia inteiro
Não sabia o quão valioso era o silencio
Até morar ao lado de um puteiro
Não apreciava a perfeição da sua mãe
Até a ver numa cama fria
E antes da pior cólica intestinal da sua vida
Não sabia que na sua barriga havia tanta calmaria

Mas esses foram exemplos
De dor depois da felicidade
Coisa a que estamos acostumados,
Nós, que vivemos nas cidades
Outro costume que temos
É de sentir dor todo dia
O dia todo, todo tempo
Como uma eterna procissão ou romaria

Aquela eterna dorzinha de cabeça
O stress de ter que pegar trem
O trem que não funciona direito
O celular que não funciona também
O plano que saúde que não cobre isso e aquilo
E o seguro de vida que só vai servir pra quem não morreu
O despertador do vizinho que acorda você
O contrato que você leu mas não entendeu

O alivio da dor do parto
É o primeiro mamãe que o filho diz
O alivio de trabalhar o ano inteiro
É ver seu décimo terceiro
Fazer sua família feliz

Tenho que evitar pensar nessas coisas
Sobre como é bom o alivio da dor,
Que é ainda mais gostoso
Quanto maior e mais forte a dor for,
Porque Isso me lembra que essas dores todas da vida contemporânea
Juntas configuram a maior dor já sentida,
E me faz pensar o quão gostosa pode ser a morte,
O único e imediato alívio da dor da vida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Costas Largas


Já somos adultos, e o ar da vida adulta, espesso e denso, começa a pesar sobre nossos ombros. Não subimos mais escadas, nem levantamos mais a cabeça com a mesma facilidade. É tudo tão pesado. Viver tem sido tão pesado. E cansativo também. Viver é ser, e ser cansa.
Não, não há de ser o ar. Vejo crianças sapecas a subirem e descerem a escadaria da igreja, com sorrisos de quem não tem nada a saber. Estamos na mesma atmosfera, e o ar não parece lhes pesar em nada. É, não é o ar.
São nossas costas, nossos ombros. Só poder ser nossas costas e ombros. Funciona assim: nós crescemos, e eles crescem conosco. Maiores, entram em contato com mais ar, carregam mais ar de uma vez, e a vida parece nos pesar mais.
Deve ser por isso que existem tantos experientes em serem adultos a vagar por aí, com essa mesma expressão de quem já cansou de viver. São um bando de costas largas.

Provas de Amor


Eu não gosto de provas de amor.
E, pra mim, isso que você andam fazendo, de declarar o amor em voz alta em lugares públicos, comprar presentes caros, desistir de oportunidades importantes; isso não são provas de amor.
O amor é chama, já dizia Vinicius. Quanto maior o amor, maior a chama. Quanto mais intenso é o amor, mas intensa é a chama. E, qual é a prova da existência de uma chama?
Não se toca numa chama, não se pega uma chama, não se estica uma chama. Imagens também não provam a existência de uma chama, nem a potencia dela, porque muitas coisas reluzem e se assemelham.
Cinzas. A única prova da existência de uma chama são as cinzas que ela deixa quando já se foi. Quanto mais volumosas as cinzas, quanto maior o rastro de destruição que uma chama deixa parar trás, mais intensa e poderosa foi.
A única real prova de amor é o estrago que o amor deixa quando para de queimar. Eu não gosto de provas de amor.

A Casa que Envelhece


Eu vago pela casa como quem peregrina em meio à neblina. Passo em frente à janela aberta, por onde agora entra luz. Não que antes os dias fossem nublados, ou as cortinas fechadas; nada disso. É que antes a casa sorria, a casa ria, a casa gargalhava. E seus olhos, as janelas, brilhavam tanto, que não se percebia a luz do sol entrando. Era como se mais luz saísse do que entrasse, porque felicidade tem luz própria.
Por onde quer que você andasse, sempre na ponta dos pés, e com esse nariz empinado, flores brotavam do assoalho, e no piso de cerâmica, via-se nascer um musgo. A casa de esverdeava, e se aquecia, se refrescava e renascia a cada manhã.
Mas, você não voltou mais. E, as faxinas e arrumações freqüentes podem até manter a casa bonita, mas nunca tão aconchegante. Porque, o aconchego é a propensão à vida. Uma casa aconchegante é como um solo fértil pra se plantar o viver, a felicidade.
Não adianta fechar as portas, as janelas e as cortinas também. Porque, uma casa não é como uma caixa de isopor, que basta estar bem fechada para conservar o calor. Nada contem o calor da vida.
E eu, agora, sentado no sofá, tirando as minhas meias, revivo essas lembranças brandas. Lembranças amarelas. Lembranças à luz de uma vela. Gargalhadas, sussurros e suspiros que vacilam como vacila a chama no pavio. Como num porre, como num sonho. E doídas. Mas, eu sou obrigado a lembrar. Porque, para onde quer que eu olhe, vejo essas paredes opacas, que se confundem com a opacidade do meu pé ressecado e com fiapos de meia grudados.
Sem você a casa se emudece, se entristece e se grisalha. Se grisalha, e não se empalidece, não desbota e nem descasca. Sua pintura se grisalha, porque a perda de cor não é por ação do tempo, como no desbotar. Mas por ação de uma ausência cada vez maior de vida, como no viver.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Saudade

Eu nunca usei cocaína, mas tenho a impressão que o que eu sinto quando você não está perto é igual à abstinência de grandes viciados nessa droga. Porque eu já respirei, a você e ao seu cheiro, tanto e com tanto prazer, que a cada inspiração que faço longe de você sinto um ar pesado. Acho que isso é que é saudade de verdade: é a dor de respirar um ar carregado da ausência de quem se ama.

Texto em movimento


Eu já escrevi bem, já escrevi. Já fui de abrir uma veia sobre o papel, e o curso do meu sangue correr em letras e palavras e linhas e textos, em poesia ou prosa.
Já escrevi. Meus dedos em canetas, lápis e teclados já foram capazes de trazer ao mundo pensamentos nem a ciência traduz nem a imaginação materializa.
Eu já transcrevi. Já pintei quadros mentais em muitas cabeças sem uma gota de tinta, e com apenas minha mente como pincel.
Eu já fui um futuro escritor. Já cunhei o que pensava com a técnica e beleza que cabiam a minhas idéias.
Mas, hoje?! Hoje eu disserto tantas e múltiplas e opostas coisas em minha mente que nenhuma palavra é tão efêmera ou metafórica que possa expressar tão breve pensamento.
O mundo gira muito rápido aí fora. E eu não consigo escrever em movimento.

sábado, 30 de julho de 2011

Samba de um Samba





Eu queria fazer uma música
Que começasse se anunciando
Assim, com uns clarins
Uns metais gritando
Como quem diz: cheguei de vez
Porque, não sou homem de vir chegando

Depois, viria o teclado
Segurando um acorde bem cheio
Mas, ao mesmo tempo, dedilhando notas agudas
Como quem pula num rio, e, pra chegar no meio
Mergulha, vem à tona, e volta a emergir
E acaba por atravessar o rio inteiro.

Daí, entrariam um pandeiro e um violão
Os dois amigos, inseparáveis num samba
Faziam a base pro clarinete entrar
Como a camareira prepara a cama;
E entraria o clarinete malandro
Como chega o tão esperado bamba.

O clarinete traz o tema da música
Como se traz uma dama pela mão
Calmo, e perene, e cheio de jeito
Cheio de cavalheirismo, e até de resignação.
Faz o tema tão levemente
Que até parece um samba-canção

Mas, depois, dispara numa carreira louca
Recortando toda a melodia,
Como quando corre um gordo desajeitado
E leva um tombo que, de ver, arrepia
Ao tentar se levantar, escorrega, e cai de novo
E o faz tão inocentemente que não há quem não ria

Repete partes distantes da música
Como que de forma aleatória.
E o faz tão linda e livremente,
Repete tanto, e de maneira tão notória
Que, para garantirem que um dia acaba a música
Lhe fazem assinar nota promissória.

Quando finalmente a música está para acabar
O clarinete se retira assim, à francesa.
O sono do pandeiro o faz ralentar
E o violão desfere enfim seus acordes de presteza
Pra que a música acabe, sim, lenta
Mas, nunca com ar de tristeza,
Como deve terminar a vida, lenta porém feliz.
Porque a morte, apesar de ser indesejado juiz,
Sempre foi nossa única certeza

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Monumentos à Tristeza


A cidade, sonolenta,
se movia devagar
Casada de produzir,
cansada de trabalhar

As pessoas já não andavam,
se arrastavam pelas ruas
Todos na solene marcha,
via sacra às casas suas

Em meio a esse burbúrio,
houve um grande alarido
Um anúncio de algo novo
que atingiu a todo ouvido
Era com grande volume
Era com grande euforia
Que, aos quatro cantos da cidade,
o anunciante assim brandia:

- Venham, venham! Venham todos
Vejam como é ser coitado
No novo monumento à solidão
À tristeza e ao rejeitado

- É uma escultura, com certeza
Mas, não foi feita por Aleijadinho
O fato é que seu coração
Ele sim já não anda sozinho

- Ele ergue o rosto e suspira
Suspira e ergue o rosto
Engole seco, e faz cara feia
Como se ainda sentisse gosto

- Seu olhar parado no ar
É o que causa maior comoção
Em nenhum lugar do mundo
Jamais se viu tão formidável atração

- Venham, venham! Venham ver!
E saibam agora do que é mais triste:
É por culpa dessa atração
Que toda a tristeza nela reside!

Ninguém que saía do centro
deixou de ouvir a gritaria
Alguns foram conferir,
ver a estátua que nunca sorria


Porém, a maior parte das pessoas
Nem se interessou pelo monumento
Preferiram voltar pra casa,
pra sua tranqüilidade rasa
Ou para seu bairro agourento

A estátua ficou sozinha
quando acabou-se a claridade
pois, de todas as luzes do shopping
nenhuma se manteve acesa, por caridade

A estátua se moveu
Viva ou morta, tanto faz
Pois quem tem dos sentimentos
Só as dores e os tormentos
É porque não vive mais

terça-feira, 5 de abril de 2011

A Noiva do Mundo

Houve uma mulher
Que amava muito
E amava tanto
Que amava o mundo

Amava o dia
amava a noite
A melodia
E o som do açoite
Amava a dor
A alegria
O furor
A companhia

Amava tudo, e amava tanto
Que chorava amor
E amava seu pranto

Seu suor também era amor
E suava quando corria
Por toda a cidade em romaria
em seu vestido de noiva
A se casar com o mundo

O homem da padaria
Jurava que a conhecia
Antes da loucura
Antes do alarde
Diz que ela de manhã
Comprava pão francês
Croisant de queijo às três
Pra tomar café da tarde

A costureira diz que ela foi sempre assim
Sempre em sua loja, a comprar
Cortes brancos de cetim
Miçangas e lantejoulas xinfrim
Pra, com seu vestido de noiva sem fim
Com o mundo se casar

O vigia diz que se lembra dela
A mulher doida, da casa amarela
Sempre a cantarolar em sua janela
Uma marcha nupcial singela

Ela canta assim tão baixinho
Assim, tão calmamente
Pra não acordar o mundo que ama
Tão cansado de pegar no batente
Afinal, o mundo trabalha o dia inteiro
Fazendo a vida, a vida da gente
O mundo é um violino que toca
Sem erros, uma música permanente

Merece discansar, mundo trabalhador
É o que diz ela consigo
Canto apenas para ninar o seu sono
A musiqueta que ira tocar
Quanto te encontrar no altar
E, enfim, casares, de todo, comigo

Um dia, o dono da funerária
Amigo de infância da amante donzela
Foi convidado por ela
Para visitar sua casa

Ele foi com muita pressa
Pois não é sempre que uma amiga querida
Tida por muitos como doida varrida
Para sua casa lhe convida

Correu, correu, e chegou à casa
Porém, ter corrido não o a diantou de nada
Pois, quando à casa, adentrou
Viu a amiga que o convidou
Já sem vida, no chão deitada

Porém, teimosos como somos
Custamos sempre a acreditar no pior
Então, duvidou da morte o funerário
Quis porque quis acreditar no contrário
Que sua amiga apenas dormia

O arcênico não mão da morta
Delatou triste verdade ocorrida
Confirmou ao homem parado na porta
Que sua amiga jazia sem vida

Havia um papel preso na porta
A ultimo desejo da doida varrida
Ela queria ser enterrada
Com vestido de noiva que fiou em vida

O enterro foi um grande evento
Toda a gente da cidade reunida
Para dar adeus a louca noiva
Porque pensavam ser esta uma triste partida

Niguém entendeu o que acontecia
E mantiveram seu pranto profundo
Mal sabiam que naquela tarde fria
O sonho da mulher em real se fazia
A noiva se casava com o mundo